O papel do produtor não é fácil de compreender para quem nunca trabalhou num estúdio de gravação. É ainda mais difícil de imaginar porque existem tantos métodos quantos produtores, e dependendo do caso o seu papel pode ser simplesmente guiar os músicos para que deem o seu melhor, ou então conceber inteiramente o álbum, compor as faixas e tocar alguns instrumentos. Em essência, a marca de um bom produtor é a sua capacidade de levar o artista com quem trabalha a dar o seu melhor, qualquer que seja o método utilizado. Para ilustrar a diversidade destas situações, propomos a nossa seleção dos 10 maiores produtores apenas no estilo rock, o que explica a ausência de monstros sagrados como Quincy Jones, Nile Rodgers ou Dr Dre. Já há matéria de sobra no país das guitarras raivosas.

Daniel Lanois
O produtor canadiano é o equivalente rock de Brian Eno: um genial criador de paisagens sonoras de tal profundidade que se poderia nelas afogar. Aliás, colaborou com Eno no clássico The Unforgettable Fire dos U2, mas também é responsável por Us de Peter Gabriel, Wrecking Ball de Emmylou Harris e sobretudo Oh Mercy, o álbum sombrio e poderoso que trouxe Bob Dylan de volta. Lanois é também cantor e guitarrista, e quando tem tempo leva a sua Les Paul Gold Top em digressão com os Black Dub.
álbum a ouvir em prioridade: Bob Dylan, Oh Mercy
Nigel Godrich
Godrich é para os Radiohead o que George Martin foi para os Beatles: um membro suplementar que permitiu ao grupo ampliar o alcance das suas experiências musicais, apontando o caminho para o futuro do rock. As suas receitas à base de pequenos sons artificiais e manipulados foram amplamente copiadas desde então, e artistas tão diversos como Paul McCartney ou Charlotte Gainsbourg confiaram-lhe as suas obras. Ele próprio é guitarrista, na Telecaster tal como Jonny Greenwood dos Radiohead. Coincidência? Talvez não…
álbum a ouvir em prioridade: Radiohead, OK Computer

T Bone Burnett
T Bone Burnett é o rei dos pântanos. Tem a capacidade de pintar uma paisagem húmida da Luisiana em três notas da sua Kay mergulhada no trémolo, e quando produz um artista leva-o para o seu universo, obrigando-o a trabalhar à moda antiga, com todos os músicos a criar ambiente tocando juntos. O seu trabalho de arquivista e detetive sonoro nas bandas sonoras de O Brother, Cold Mountain ou Walk The Line fizeram dele um aliado inestimável para realizadores exigentes. Além de ter produzido álbuns para Elton John, Elvis Costello ou Roy Orbison, T Bone é também um brilhante guitarrista e cantor a solo.
álbum a ouvir em prioridade: Alison Krauss & Robert Plant – Raising Sand
Butch Vig
Se Vig tivesse parado de trabalhar em 1991 já seria uma lenda, tal foi o impacto do seu trabalho em Nevermind dos Nirvana, que sozinho definiu a meta a alcançar para todos os álbuns da década. Encontrou o equilíbrio perfeito entre selvajaria e sofisticação, com um som polido mas a transpirar punk. É também responsável por Siamese Dreams dos Smashing Pumpkins, Dirty dos Sonic Youth e Wasting Light, dos Foo Fighters. Para relaxar, é também baterista e produtor do grupo Garbage, com 17 milhões de álbuns vendidos.
álbum a ouvir em prioridade: Nirvana, Nevermind
Joe Meek
A carreira de Joe Meek foi curta, começando em meados dos anos 50 e terminando tragicamente em 1967. Nesse intervalo, o britânico revolucionou o papel do produtor, passando de simples técnico de som a membro por inteiro dos grupos que gravava, nomeadamente os Tornados, cujo Telstar é uma magnífica demonstração do que se podia criar num estúdio londrino em 1962. Meek transformou o estúdio num instrumento em si mesmo, e todos os produtores que vieram depois lhe devem algo pelo seu trabalho pioneiro.
álbum a ouvir em prioridade: The Tornados, Telstar

Ken Scott
Difícil ter melhor escola do que Ken Scott, que aprendeu com George Martin durante a gravação dos lendários álbuns dos Beatles, incluindo Revolver. Depois trabalhou com Bowie, nos seus dois melhores álbuns (Hunky Dory e Ziggy Stardust), e com Elton John na parte mais conseguida da sua discografia. Mas Scott não se limitou a fazer a melhor pop possível: inventou também o som da fusão jazz (Mahavishnu Orchestra, Billy Cobham) e ajudou os progressivos Supertramp a lançar o seu álbum mais bem produzido, Crime Of The Century.
álbum a ouvir em prioridade: David Bowie, Ziggy Stardust
Geoff Emerick
Emerick começou como assistente no início da carreira dos Beatles, e quando o grupo de Liverpool começou a ultrapassar os limites da sua pop, Geoff tornou-se o seu engenheiro de som oficial. Foi ele quem acompanhou os quatro rapazes de Liverpool nos seus delírios sonoros mais ousados, incluindo a ideia genial de passar a voz de John Lennon por uma cabine Leslie com altifalante rotativo para o som fascinante de Tomorrow Never Knows. Paul McCartney voltaria a chamá-lo na sua carreira a solo, e Emerick trabalhou ainda com Elvis Costello, Cheap Trick e Kate Bush.
álbum a ouvir em prioridade: The Beatles, Revolver
Rick Rubin
Rick Rubin é sem dúvida o produtor mais importante dos últimos trinta anos. Tem a raríssima capacidade de não impor a mesma assinatura sonora a todos os artistas com quem trabalha (ao contrário de T Bone Burnett, por exemplo), mas quase sempre consegue levá-los a realizar o seu melhor álbum. Quer se trate de Slayer (Reign In Blood), Beastie Boys (Licensed to Ill), System Of A Down (Toxicity), Tom Petty (Wildflowers), Kanye West (Yeezus) ou Johnny Cash (American Recordings), todos beneficiaram da passagem ao lado do sábio de longa barba. Se ao menos conhecêssemos o seu segredo…
álbum a ouvir em prioridade: Red Hot Chili Peppers, Blood Sugar Sex Magic

George Martin
Sir George Martin não é apelidado de “o quinto Beatle” por acaso. Foi ele quem fez a audição dos Beatles para a editora Parlophone, ele quem dirigiu as gravações dos maiores álbuns do grupo, de Please Please Me a Abbey Road, ele também quem escreveu os arranjos de cordas de Eleanor Rigby ou tocou piano em In My Life. Sem ele, os fab four teriam provavelmente permanecido um quarteto de rockabilly sem grande interesse. Transformou os seus arranjos e fez da sua pop a referência pela qual todas as outras seriam comparadas nos séculos vindouros. Nada mau para um engenheiro de som que começou a gravar sketches cómicos…
álbum a ouvir em prioridade: The Beatles – Sgt Pepper’s Lonely Hearts Club Band

Phil Spector
25 êxitos no top 40 entre 1960 e 1965, muitos dos quais co-escreveu… Difícil competir com um currículo destes, e isso é apenas o começo! Spector produziu álbuns históricos com Ike & Tina Turner, The Beatles, Harry Nilsson, The Ramones e dois Beatles a solo (Lennon e Harrison), aplicando sempre a sua invenção do Wall Of Sound. O princípio deste “muro do som” é pôr o maior número possível de músicos a tocar em simultâneo, com dois bateristas e uma dezena de guitarristas, para obter um som enorme, envolvente e giratório. Muitos outros produtores pilharam sem vergonha o seu legado.
álbum a ouvir em prioridade: The Ronettes – Be My Baby

