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«O contrabaixo, uma escolha quase mística» - Tales S2 Ep 6 Laure Sanchez

Baixista, contrabaixista e autora-compositora, Laure Sanchez chegou à música por um caminho pouco habitual. Guitarra clássica e solfejo na infância, depois vários anos afastada do instrumento, durante uma pré-época para escola de engenharia e uma licenciatura. Por volta dos 19 anos, apercebe-se de que essa não é a vida que quer e começa a tocar contrabaixo. O primeiro instrumento foi um modelo antigo emprestado, trazido para casa dos pais sem capa, colocado no banco de trás do carro com a cabeça a sair pela janela.

Seguiram-se anos de jazz, uma passagem pelo conservatório e pelo Centre des Musiques Didier Lockwood, depois Paris e o cabaret, onde o músico toca ao serviço de um espetáculo. O baixo elétrico assume o protagonismo em projetos mais próximos da música popular: hoje acompanha Voyou, com uma digressão quase toda em baixo e voz, e toca em trio com François and The Atlas Mountains. Em paralelo, constrói o seu próprio projeto, ao vivo em três línguas: francês, inglês e espanhol.

Neste episódio de Tales, a Laure fala do rock do irmão mais velho e do flamenco dos verões na Andaluzia, do professor que lhe mostrou que se pode viver da música, de Esperanza Spalding e do trio de Ahmad Jamal, do equilíbrio frágil entre digressões e projeto pessoal, e do seu olhar de fã sobre Rosalía.

Laure Sanchez - Baixista, contrabaixista e autora-compositora

 

A entrevista Tales

Quais são as tuas primeiras memórias de música, quando eras criança?

Vêm sobretudo do meu irmão mais velho. Os meus pais não eram músicos, mas ele ouvia muita música: rock, bandas como The Vines, The Offspring, Tété… E havia também o flamenco, porque venho de uma família andaluza. São mesmo esses dois polos: o rock que ouvia em casa e o flamenco que escutava quando íamos ver a família em Espanha, sobretudo no verão. Era muito diferente do que se ouvia em França, e isso intrigava-me bastante.

A música fazia então parte do teu ambiente ou foste tu que a foste "buscar"?

Os meus pais vêm do sul de Espanha, o meu pai é de Córdoba e a minha mãe de Almería. Mas a música não era de todo vista como uma profissão. Eles tiveram percursos muito clássicos, ligados à imigração, com essa vontade de integração e estabilidade. A arte não era central, pelo menos não como perspetiva profissional. Por isso tenho mesmo a sensação de ter ido buscar a música por mim própria.

Se tivesses de dividir o teu percurso em grandes etapas, quais seriam os capítulos?

Quando era pequena, comecei pela guitarra clássica. Não por um gosto especial por esse instrumento, mas porque era o mais acessível: fácil de transportar, não muito barulhento. Fiz solfejo, teoria, mas depressa senti que esse repertório não me correspondia totalmente.

Desliguei-me durante um tempo. A música ficou lá, em segundo plano: escrevia canções, tocava de vez em quando, mas sem um projeto claro.

Depois, por volta dos 18-19 anos, durante os meus estudos (tinha feito uma pré-época e depois uma licenciatura), percebi que não era feliz. Foi aí que comecei a tocar contrabaixo. Foi um amor à primeira vista. A partir desse momento, tudo se reorganizou à volta disso.

Quando sentiste que a música podia tornar-se a tua profissão?

Bastante tarde, por volta dos 20 anos. Gostava de música desde sempre, mas não me dava espaço para a encarar a sério. Quando comecei o contrabaixo, conheci o meu professor, que vivia da música. Foi a primeira vez que vi alguém, próximo, que fazia da música uma profissão real. Não uma figura inacessível, nem alguém visto na televisão. Isso tornou a coisa possível, concreta.

Escolheste o contrabaixo, um instrumento raro, grande, pouco óbvio. Porquê?

É bastante místico, mesmo para mim. Quando era pequena, já me perguntava como aquilo funcionava. Esse instrumento enorme, sem referências visíveis, fascinava-me. Mas não tinha coragem. Aos 19 anos, procurei um professor na internet e experimentei. Sempre quis tocar baixo, e o contrabaixo tinha esse lado acústico, físico: as vibrações, a relação direta com o som. Não saberia explicar racionalmente por que esse instrumento e não outro, mas era óbvio.

Como é que os teus pais reagiram a essa escolha radical?

Foi bastante brutal. Já tinha a licenciatura, por isso não começava do zero, mas voltar para casa com um contrabaixo emprestado, enorme, sem capa, mal encaixado no carro… deixou toda a gente desconcertada.

O meu pai ficou muito preocupado. E eu também, na verdade. Tinha uma vontade muito forte, mas nenhuma certeza sobre o que viria a seguir. Tive de fingir que tinha as coisas controladas.

Quais foram as tuas primeiras grandes influências?

Claramente Esperanza Spalding. Fiquei obcecada por ela durante anos. O facto de ser mulher, cantora e instrumentista, muito independente, contou muito. Ouvi tudo, vi tudo.

Há também Avishai Cohen, que me marcou no início: uma porta de entrada muito acessível para o jazz. E depois um concerto ao vivo de Ahmad Jamal em trio, o meu primeiro disco de jazz. Era simples, depurado, magnífico. Anotei todas as linhas de baixo.

O trio aparece muitas vezes no teu percurso. O que é que esta formação te traz?

O trio oferece imenso espaço. É uma formação muito essencial: rítmica, harmonia, voz. Está tudo lá.

Hoje, por exemplo, toco em trio com François and The Atlas Mountains, não é jazz, mas encontro essa sensação muito orgânica, muito viva, que me tinha feito falta. Numa época saturada de sequências e de ouvidos, faz muito bem.

Acompanhando muitos artistas, o que é que esse papel te traz?

Imenso. Gosto de descobrir universos muito diferentes. Depois do jazz, fiz cabaret: aí, estás inteiramente ao serviço de um espectáculo. Não mostras o que sabes fazer, serves um propósito. Isso desloca completamente o ego do músico, e faz bem.

As digressões também me fizeram evoluir muito tecnicamente. E tocar a música dos outros alimenta-te necessariamente, mesmo que inconscientemente.

É difícil conciliar acompanhamento e projecto pessoal?

É um equilíbrio muito delicado. A digressão consome muita energia, e quando regressas ao teu projecto, vês tudo o que ainda falta: rede, equipa, meios. Pode ser desanimador.

Ao mesmo tempo, acompanhar artistas dá-te chaves, uma compreensão muito concreta da indústria. O risco é nunca ousar dedicar-te inteiramente ao teu projecto. Mas depender só disso pode ser também muito duro. Não tenho a certeza se quero que toda a minha sobrevivência artística dependa disso.

Qual é a tua relação com as redes sociais?

É muito ambivalente. Há períodos em que me divirto mesmo, em que gosto de criar conteúdo, pensar numa identidade. E outros em que acho isso extremamente ansioso.

Está tudo misturado: a actualidade violenta, o entretenimento, a auto-promoção. Passamos de um vídeo chocante para um amigo que anuncia o seu single. É muito difícil manter o sentido, especialmente quando estás numa rede de músicos que fazem todos a mesma coisa ao mesmo tempo.

Rosalía trouxe o flamenco para o centro da cultura pop mundial. Que olhar tens sobre a sua música?

Sou grande fã. Descobri-a há mais de dez anos, quando ia visitar a minha família em Espanha: as minhas primas ouviam-na antes de ela ser conhecida. No seu primeiro álbum em duo com um guitarrista, o que me impressionou foi a sua voz. O flamenco, tradicionalmente, são vozes muito potentes, muito ásperas. Ela tinha uma abordagem muito mais suave, muito clara, mantendo as entoações melódicas do flamenco. Achei isso magnífico.

O que acho incrível é a sua liberdade: misturar essa herança com coisas muito actuais, lançar um tema reggaeton, colaborar com James Blake… Ela não se proíbe nada. Acho que abriu um caminho para outros artistas, esta forma de reapropriar a sua cultura e reinjetá-la numa música contemporânea.

E tu, voltaste ao flamenco ou às tuas raízes andaluzas?

Sempre me fascinou. Nunca o estudei de forma académica, não estive em imersão, e não conseguiria cantar como uma cantora de flamenco. Mas é uma música que ouvi toda a minha vida. Sempre escrevi um pouco em espanhol, sem necessariamente o destacar.

Não é impossível que lance música em espanhol um dia.

Escreves e cantas em várias línguas. Porquê?

No meu live, já há três línguas: francês, inglês e espanhol.

O inglês vem muito do meu património jazz e afro-americano. O francês apareceu mais tarde, e hoje escrevo sobretudo nessa língua. O espanhol, gostava de me aprofundar mais. Acho que tudo isso vai-se afinar com o tempo.

Reivindicas uma estética musical precisa?

Não propriamente. Tenho tantas influências diferentes que me custa definir o que faço. Lançei um tema muito neo-soul, porque era o que ouvia nessa altura.

Mas conforme as formações, o live, os músicos com quem toco, a música pode tornar-se mais rock, mais crua, ou pelo contrário muito produzida. Gosto dessa plasticidade. Gosto que a música mude.

Carta branca: com quem sonharias ir em digressão?

Solange. É o primeiro nome que me vem à cabeça. Uma artista muito livre, híbrida, com um universo lunar. Identifico-me muito com ela.

E para te acompanhar no teu próprio álbum?

Rosalia, sem hesitar. Pela sua visão global: a produção, a voz, a direcção artística. E recentemente, também fiquei muito marcada por Mk.gee, pela singularidade do seu universo.