


François Baurin é engenheiro de som, mixer e realizador. Há quase trinta anos que grava, mistura e acompanha artistas tanto em estúdio como em palco. Fez a sua aprendizagem no estúdio Recall, em Plaine Saint-Denis, depois na Warner durante a era dourada do rap francês, antes de montar o seu próprio estúdio há cerca de quinze anos. Hoje, trabalha com artistas como Francesco Tristano, Blick Bassy ou Bachar Mar-Khalifé, transitando do rock à eletrónica, do clássico ao jazz.
Neste episódio de Tales, ele recorda a sua adolescência com a guitarra na mão entre Depeche Mode e Nirvana, a descoberta do estúdio quase por acaso, os seus anos na Warner a gravar Kery James, e o encontro com o trio Aufgang que mudou o seu percurso. Uma conversa sobre a profissão de engenheiro de som, a escuta, e essa ideia simples que está sempre presente nele: colocar-se ao serviço do projeto.
François Baurin
O seu estúdio de gravação em Paris. Instagram: @hinterlandlab
A entrevista Tales
Lembras-te dos primeiros momentos em que soubeste que a música ia contar?
Queres que me lembre do primeiro momento? Isso é muito, muito longe. Tenho memórias de criança, mas foi quando comecei a tocar guitarra no liceu, no 10º ano. Fiz isso durante cerca de três anos. Passei o liceu a aprender a tocar. E para mim, era óbvio que a música era, obviamente, a coisa mais importante do mundo para o jovem de 15 anos que eu era.
O que ouvias nessa altura?
Ouvia rock dos anos 80, um pouco de eletrónica também: Depeche Mode, The Cure, U2. Depois, nos anos 90, chegou o grunge — Nirvana, Alice in Chains, Pearl Jam. O início do hip-hop também. E depois as fusões, com Cypress Hill, e mais tarde Korn, Death Tones. Absorvi tudo com muito apetite. E no final dos anos 90, foi a música eletrónica, a techno. Tudo isto em cerca de dez anos. Foi louco.
Também tocavas?
Sim. A descoberta do instrumento, as referências… E claro, penso logo em Jimi Hendrix, que para mim era uma referência máxima no domínio deste instrumento. É incrível. Aliás, para mim, sem dúvida, é o melhor guitarrista de guitarra elétrica que alguma vez existiu — pela inventividade que tinha, pela loucura na forma de tocar, que para mim, até hoje, nunca foi igualada.
Como passaste daí para a tua profissão atual?
Fiz o meu bac, acabei na faculdade um pouco por acaso. Pensei: rápido, tenho de pensar no que quero fazer. E como a música era muito importante, pensei na profissão de engenheiro de som.
Nessa altura — falo de 93-94 — havia poucas possibilidades para estudar esta profissão. Havia três BTS audiovisuais em França, e três escolas privadas em Paris. Tentei os BTS, mas fui recusado porque não tinha um bom dossier. Tinha passado demasiado tempo a tocar guitarra no liceu. Não tinha estudado o suficiente. Por isso, dirigi-me para uma escola privada chamada Novocom na altura.
E foi aí que surgiu o estúdio?
Sim. No último ano, procurava um contrato de qualificação, com vista ao cinema. Não encontrei nada. E um dia, uma amiga disse-me: «Tenho um amigo que montou um estúdio de gravação, devias ligar-lhe.» Liguei e comecei no dia seguinte. Era o Recall, em Plaine Saint-Denis. Assim que pus os pés naquele universo, pensei: é para mim. Era o que sonhava fazer, embora há anos achasse que não conseguiria.
Ficaste muito tempo nesse estúdio?
Quase três anos. Também trabalhava num estúdio de ensaio, o Auditorium de Saint-Ouen, e fazia um pouco de live. Mas sempre que podia, estava no estúdio. Aprendi imenso lá. Depois fui chamado para o serviço militar. Deixei tudo de repente.
E depois?
Fui para Bordéus, para Alexis Bardinet, na Globe Audio. Depois voltei a Paris e arranjei trabalho na Warner. Tinham acabado de criar um pequeno estúdio de produção. Era uma época em que ainda havia muito dinheiro na música. Os discos vendiam-se, o streaming ainda não existia. Fazíamos as coisas com tempo. As editoras investiam.
O que fazias exatamente na Warner?
Recebíamos maquetes, os artistas vinham ao estúdio, regravávamos, testávamos coisas. Eu fazia muita voz. Na altura, era a idade de ouro do rap e do R&B.
Uma memória marcante desse período?
Sim: Kery James.
Conheci-o no estúdio da Warner. Ele vinha regularmente. Gravei muitos rappers nessa altura, e ele foi, de longe, o que mais me impressionou atrás do microfone. Seja pelo discurso, pela forma de colocar o flow. Muitas vezes era one-shot. Muito impressionante.
Saíste da Warner depois?
Sim. E comecei a trabalhar com músicos que conheci lá: Francesco Tristano, Rami Khalifé e Aymeric Westrich. Formavam um trio chamado Aufgang. Trabalhar com eles foi uma verdadeira escola. Aprendi muito sobre estúdio, mixagem, piano, bateria… Com eles cresci muito.
Foi nessa altura que montaste o teu estúdio?
Sim, foi aí que consegui instalar-me num espaço meu. Trabalho neste estúdio há cerca de quinze anos. Faço mixagem, gravação, multicanal, Atmos… com artistas que conheço ou que encontro há muito tempo.
O que é para ti um bom engenheiro de som?
É alguém que está atento ao projeto musical em que trabalha, e à colaboração que nasce com o(s) artista(s). Estar disponível, estar presente para servir um projeto. Tentando deixar o ego de lado. Nem sempre é fácil, mas com os anos aprende-se.
Passas de um género para outro, faz parte da profissão?
Sim. É um desejo que sempre tive. Tenho gostos muito ecléticos. Aprendi a gostar de estilos que inicialmente não gostava, ao confrontar-me com eles na minha profissão. Gosto de trabalhar em projetos diferentes. Rap, rock, eletrónica, jazz, clássico… até coisas inclassificáveis.
Trabalhaste recentemente com Blick Bassy, certo?
Sim. É um artista franco-camaronês, com uma música muito moderna, mas enraizada na sua cultura. Este tipo de projeto é o que acho super interessante. Tentar compreender músicas que não fazem necessariamente parte do teu universo inicialmente. Isso enriquece-me imenso.
Também fazes lives com Francesco Tristano?
Sim. Acompanho-o em palco. Cuido da sonorização do piano, dos efeitos… Ele mistura o clássico com a eletrónica. Foi ele que me convidou. Tinha deixado um pouco o live de lado, mas com ele redescobri a espontaneidade do concerto. É um formato muito diferente do estúdio. É preciso ser rápido, eficiente. Mas gosto muito.
Um álbum que sonharias misturar?
Violator dos Depeche Mode. É um álbum que descobri na adolescência graças ao meu irmão, e redescobri mais tarde com uma banda de rock industrial. Continua a fascinar-me. E também In Utero dos Nirvana, com Steve Albini. Adoraria ter participado nessa sessão.
E um projeto de sonho, hoje?
Postcards, uma banda de Beirute que descobri quando fui lá para um projeto com Bachar Mar-Khalifé. Conheci-os, adoro a música deles. Já têm um ótimo engenheiro de som, Fadi Tabbal. Por isso, provavelmente nunca acontecerá. Mas se viessem a Paris e precisassem de gravar, estaria disponível imediatamente.
Um conselho que darias a ti próprio mais jovem?
Não tenhas medo de bater às portas. Mesmo que te digam não, não é grave. Há outras portas para abrir. É algo que não fiz muito na altura e que hoje lamento um pouco.

